Paradigma da vida (Lc 4,21-36) (IV Dom T.C. C)

Naquele tempo: Entrando Jesus na sinagoga disse: ‘Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir.’ Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: ‘Não é este o filho de José?’ Jesus, porém, disse: ‘Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum.’ E acrescentou: ‘Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio.’ Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.



Introdução

Naquele tempo: Entrando Jesus na sinagoga disse: ‘Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir.’

O trecho que hoje nos é oferecido forma um único episódio com o que foi proposto na semana passada, nos vv. 16-20 deste capítulo. O evangelho narrava o discurso “programático” de Jesus na sinagoga: Jesus, convidado a ler as Escrituras, proclama a passagem do profeta Isaías, ao capítulo 61 e, como lemos novamente hoje, diante da assembléia que espera, proclama seu ‘cumprimento’: em Jesus, presente, acontece o dia da salvação. Jesus atua as promessas divinas, anunciadas pelos profetas; em particular, isso acontecerá no dia decisivo de sua morte na cruz (Lc 23,43).

Então, agora vamos olhar para a segunda parte deste fato, isto é, o que acontece depois desta proclamação.

Eu gostaria de resumir o que veremos através de três cores diferentes, para representar a progressão que ocorreu neste momento (coloque os três panos próximos um do outro, conforme são apresentados, como formando uma estrada).

  1. Todo mundo ficou admirado (cor de rosa)
  2. Começam a desprezá-lo (cor roxa clara)
  3. Querem matá-lo (cor escura)

Em poucos momentos, em poucas linhas do conto, uma mudança radical acontece. Lucas não nos explica todos os detalhes e a razão dessa mudança total, mas certamente sua história quer alcançar dois objetivos que fazem parte de seu evangelho:

Colocar a vida de Jesus à sombra do mistério da cruz e da rejeição dos judeus: o que acontece aqui, no começo, será realmente o que acontecerá ao longo de sua vida;

Anunciar a missão universal da Igreja entre os pagãos: isso, veremos ao longo deste ano, é na verdade uma das linhas de leitura do Evangelho de Lucas.

Vamos começar, então, a aprofundar esses estágios progressivos.



1. Admiração

Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca.

Maravilha e admiração referem-se a algo bonito, agradável, positivo… as pessoas julgam o que Jesus está dizendo como “bom”.

Lucas exagera: ele fala de todos. Para destacar a mudança que de lá a pouco irá acontecer, ao negativo, Lucas enfatiza o positivo.

Além de ficar admirados, davam testemunho: o testemunho acontece a partir de uma experiência pessoal; cada um deles havia percebido internamente a bondade das palavras de Jesus, sua veracidade. No íntimo, eles sentiram que Jesus estava dizendo a verdade. Causa da admiração e do testemunho foram as palavras de graça que saíam da sua boca: um discurso carismático, no qual se percebia a ação do espírito da profecia.

Então gostaria de colocar a Bíblia aqui, no centro deste tecido rosa, como um símbolo da Palavra que Jesus leu, tirada do AT, e da que Jesus falou, que entrará no NT. Palavra que está viva, hoje, para nós também.

 

ESPELHAMENTO:

Gostaria de parar por um momento com vocês na frente deste símbolo. Também nós ouvimos Jesus, não apenas uma vez, mas muitas… Todos os domingos, durante a liturgia, mas talvez também nos grupos que frequentamos, ou talvez até mesmo recebendo sua Palavra por conta própria, em nossas casas… Quanto esta palavra nos leva a dar testemunho dEle? Quanto a percebemos como algo que nos toca profundamente, que aquece nosso coração?



2. Desprezo

a. Provocação

E diziam: ‘Não é este o filho de José?’

Mc tinha sido mais forte> “Não é este o carpenteiro?” Lc o chama de “filho de José”, para atenuar a definição. Depois da admiração, a inveja começa a crescer: não é dessa família, de condições humildes, de trabalho humilde… como é que nos ensina? O quê se acha? Desde logo, há o rejeito de uma teologia que mostra um Deus que passa através da humildade… e Lucas, sabemos, enfatiza em seu Evangelho este rosto de Deus: Deus é o “salvador dos pobres”, conforme anunciado pelo anjo aos pastores, um Deus “que olha para a humildade da sua serva”, como Maria proclamara 30 anos antes… Este Deus não é aceito.

Quero simbolizar essa não aceitação colocando uma pedra no centro do tecido roxo. Símbolo do coração duro e da mente dura, isto é, de quem não quer se abrir para a novidade que lhe é proposta, porque está endurecido em seus próprios preconceitos…

ESPELHAMENTO:

E aqui está outro motivo de espelhamento para nós. Como acolhemos a novidade de Deus, de um Deus que às vezes passa por caminhos inesperados e não responde aos nossos critérios e expectativas? Aconteceu a você rejeitar um Deus que era diferente de como você o “construiu”?

b. Dois provérbios: alusão à cruz

Jesus, porém, disse: ‘Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum.’ E acrescentou: ‘Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria.

A esta provocação, Jesus responde com dois provérbios:

 

  1. Médico, cura-te a ti mesmo

– Esse provérbio pressupõe que Jesus já tenha operado milagres em Cafarnaum (como relatado por Marcos): seus compatriotas o desafiaram a fazê-los ali também, em sua terra natal.

– Esse “desafio” realmente antecipa o desafio que será feito sob a cruz: “A outros salvou, a si mesmo não pode salvar. O Messias, o rei de Israel desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos” ” Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!”” (Lc 23,36-37)

 

  1. Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria

– Com este segundo provérbio, Jesus já se refere à sua morte, o destino reservado para os profetas.

Quero representar, então, a resposta de Jesus com uma cruz. O coração duro, a cabeça dura, que não aceita a novidade, chegará ao seu cume lá, na cruz.

 

ESPELHAMENTO:

Diante desta cruz, eis aqui outro espelhamento para nós, desta vez olhando para nossas vidas, para nossos ser cristãos. Talvez nós também nos tenhamos sentidos desentendidos, ou fomos desafiados por outros, diante de nossa fé… A resposta, para todo desafio, para toda provocação, é esta: a cruz… Quanto sou capaz de aceitar o desafio na minha vida, de receber a cruz?

 

c. A escolha dos pagãos

De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio.’

Jesus cita o A.T .:

– 1 Reis 17,7ss, o episódio da viúva de Sarepta

– 2 Reis 5,1ss, o episódio de Naamã, o sírio

A dureza do coração de seus compatriotas, que será uma constante na história de Jesus, fará com que ele compreenda gradualmente sua missão universal. Lc coloca isso no começo do evangelho, mas sabemos que em Jesus essa consciência chegou no tempo. Em Lc está consciência já está no discurso programático que foi lido antes.

A igreja, que segue a Jesus, e para a qual Lucas escreve, também é convidada a ir aos “pagãos”, isto é, “sair” em busca dos distantes.

Gostaria de representar esse chamado, essa consciência, com um par de sandálias, que coloco no pano roxo.

 

ESPELHAMENTO:

A experiência de Jesus me diz que, diante das dificuldades, não posso ficar parado, me bloquear, mas tenho que ir mais longe, tenho que ir além. Porque muitos estão esperando. Quanto, na minha vida, consigo viver este ir além?


3. Tentativa de matar Jesus

Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício.

Aqui está no final da escalada. Da admiração à tentativa de linchá-lo… Por quê?

Mais uma vez, a rejeição de uma teologia diferente. A salvação dos gentios, ou seja dos pagãos, era contra o messianismo que esperavam, pois esperavam o estabelecimento do reino dos judeus que dominariam as nações pagãs. O que Jesus está dizendo não é apenas uma idéia, mas algo que afeta profundamente a fé deles, a consciência de ser o povo escolhido, sua identidade como povo, mas também pessoal, porque o que era do povo também era pessoal, nessa cultura…

Novamente Lc exagera: todos. Mas faz isso mesmo para enfatizar, como dissemos antes, a transição do positivo para o negativo. Outras vezes enfatizamos como o termo “desdém”, que na cultura era o termo usado para descrever o sentimento dos profetas diante da injustiça. O que os presentes sentem é que estão enfrentando uma injustiça: um Deus que salva a todos e não tem em mente “os seus”. Um pouco como a parábola dos trabalhadores da última hora em Mateus.

Onde é este lugar do precipício? Tradicionalmente, 2,5 km ao sul de Nazaré. Isso faz suspeitar que era longe demais para ser o local do linchamento… Vários comentaristas apontam que Lucas realmente quer, com isso, dar uma mensagem: o profeta é empurrado para fora dos muros da cidade, como lugar de maldição, prefiguração da crucificação de Jesus fora dos muros de Jerusalém.

Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho

E misteriosamente Jesus desaparece… Diante de uma multidão em que todos querem linchá-lo, ele consegue passar tranquilamente entre eles… Mesmo aqui, tomamos algumas idéias para meditação.

Passa pelo meio deles. Jesus não escapa “voando”, usando seus poderes extraordinários, mas passa no meio. Mais uma vez, acolhe e vive a encarnação. Mas, ao mesmo tempo, eles não lhe fazem nada, por quê? Sabemos que Jesus transmite uma autoridade, com seu jeito e seu ensinamento. Provavelmente, essa mesma autoridade o protege, forma como um escudo protetor. Eles querem acabar com eles, mas não fazem nada e o deixam passar…

Mas, por outro lado, sabemos que Jesus não pode morrer lá. Seu lugar será Jerusalém … Morrendo como profeta na cidade centro da religiosidade de seu povo.

E a descrição é muito bonita e falante: ele continuou o seu caminho. Quase para dizer que a partir daí começa uma história, uma jornada … que terá seu cume ali mesmo, em Jerusalém. E, a partir daquele momento, Lucas escreverá a história dessa jornada que tem como objetivo e centro Jerusalém.

Quero indicar isso simbolicamente colocando um pano a formar uma estrada sinuosa que começa a partir do pano escuro… para representar que, a partir daquele momento sombrio, negativo, começa uma viagem. Isto é, Jesus não pára, não pára antes mesmo da tentativa de matá-lo. Vá em frente, anda, continua procurando a vontade de Deus…

 

ESPELHAMENTO:

Mais uma vez, uma reflexão para nós. Pois acredito que a todos nós esse pano escuro dá medo… Primeiro, podemos nos perguntar: O que é, para você, em sua vida, este pano escuro? Que momento de sua vida, quando sentiu a “morte” perto, talvez não a morte “física”, mas a morte espiritual, psicológica… Tem bloqueado você, ou te levou a começar uma nova jornada? E como você está vivendo isso agora?


Conclusão

Eis-nos no final da nossa jornada. Um caminho que é simbolizado por esta escultura, que, como dissemos há pouco, não termina realmente porque há um caminho, a ser percorrido.

Gostaria de concluir colocando um último símbolo, que colocaria longe, no final do caminho, indicando o alvo e ao mesmo tempo a sua conclusão: a cruz. Desta vez um pouco maior que a primeira, pois representa, no final, o cumprimento.

Estamos apenas no início do Evangelho de Lucas, no início do ano litúrgico que nos levará até lá, debaixo da cruz, onde se realizará aquele hoje da Salvação. Na cruz, a promessa do paraíso para o ladrão arrependido… a promessa do paraíso para todos nós, o céu que se abre…

Então, desejo concluir olhando para esta escultura como um todo, como um paradigma da minha vida, da nossa vida, de cristãos, sim, mas antes de tudo de homens e mulheres, porque o cristão é a plenitude do humano… Por isso, a vida pode começar em rosa, em uma atmosfera pacífica e festiva, onde até mesmo como cristão, vivemos a beleza de um encontro com Deus e Sua Palavra … Mas o rosa é apenas o começo. Provavelmente, para nos dar a força para enfrentar o resto. Que é coração duro, cruz, caminho, perda, derrota, mas sempre com a possibilidade de avançar… Sabendo que o ponto final é aquela cruz…

ESPELHAMENTO:

Então, olhando para esta escultura, na sua totalidade: onde você está hoje?

Veja o roteiro para a realização do encontro

 

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1 respostas para Paradigma da vida (Lc 4,21-36) (IV Dom T.C. C)

  1. Maria Deusdedith disse:

    Fico com um pouco de cada palavra
    … futuro fala mais forte devido as minhas tantas limitações e, ante a realidade do outro… não posso abandonar o barco.. preciso e quero corresponder a misericórdia de Cristo para com a minha vida e toda a humanidade!!!

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